quinta-feira, julho 23

Matheus Rocha, do Br’Oz, abre o coração sobre traumas da infância que marcaram sua vida

Matheus Rocha, ícone do Br’Oz, discute abuso na infância (Foto: Divulgação)

Matheus Rocha, amplamente reconhecido por sua participação no grupo musical Br’Oz, que surgiu através do programa Popstars e é conhecido por hits como “Prometida” e “Vem Pra Minha Vida”, decidiu compartilhar uma experiência traumática de sua infância. O cantor revelou ter sido alvo de abuso por alguém muito próximo à sua família.

Ao discutir esse tema delicado, Matheus transforma uma lembrança dolorosa em uma poderosa ferramenta de conscientização. Seu testemunho também ajuda a desmistificar uma crença ainda prevalente em muitas famílias: a ideia de que o perigo está apenas fora de casa ou entre estranhos.

“Precisamos estar vigilantes porque o risco pode estar em qualquer lugar”, alerta o artista durante a entrevista.

A vivência de Matheus ilustra como o abuso pode ser mantido em segredo por longos períodos, especialmente quando o agressor é alguém conhecido e considerado confiável. Muitas crianças não conseguem entender plenamente a situação e podem optar pelo silêncio devido ao medo, vergonha, culpa ou ameaças, além do temor de não serem acreditadas.

“Por muito tempo, eu não associei os desafios que enfrentei ao que me havia ocorrido”, compartilhou o cantor. Ao expor publicamente sua história, Matheus busca evidenciar que as repercussões do abuso podem persistir na vida adulta, impactando a autoestima, relacionamentos, saúde emocional e a capacidade de confiar nos outros.

Um desafio sério e frequentemente oculto

Estatísticas do Ministério da Saúde revelam a gravidade dessa questão. Entre 2015 e 2021, foram registradas no Brasil 202.948 notificações de violência sexual contra menores. Desses casos, 83.571 afetaram crianças com até 9 anos e 119.377 envolveram adolescentes entre 10 e 19 anos. Mais de um terço das denúncias referia-se a ocorrências repetidas, sendo que as residências foram identificadas como o local mais comum para esses episódios.

Esses dados ressaltam a importância de não subestimar a proximidade do agressor. Pesquisas indicam que a maioria dos crimes sexuais contra crianças é perpetrada por familiares ou pessoas conhecidas. Isso implica que laços familiares, amizade ou afinidade social não devem impedir os responsáveis de estarem atentos a comportamentos inadequados.

No entanto, os registros oficiais refletem apenas os casos reportados e identificados. A subnotificação continua sendo um dos maiores obstáculos para enfrentar essa forma de violência, já que muitas vítimas demoram anos para relatar o que sofreram.

Sinais que requerem atenção

Não há um único indicador capaz de confirmar um abuso; no entanto, mudanças abruptas e duradouras devem ser observadas por pais, responsáveis e educadores. Alguns sinais incluem medo incomum em relação a certas pessoas ou lugares, isolamento social, manifestações de agressividade ou tristeza intensa, ansiedade elevada, queda no desempenho escolar e alterações nos padrões de sono ou apetite.

Professores desempenham um papel crucial nesse contexto por interagirem diariamente com os alunos e poderem identificar mudanças que podem passar despercebidas em outros ambientes. O Ministério dos Direitos Humanos recomenda que as instituições educacionais fiquem atentas a oscilações no humor dos estudantes, sonolência excessiva ou retraimento social, além de abordarem temas adequados à faixa etária sobre limites corporais, consentimento e identificação de situações desconfortáveis.

A prevenção começa com diálogo aberto

Pais e educadores precisam ensinar desde cedo às crianças que elas têm domínio sobre seus próprios corpos e têm direito a recusar contatos que provoquem medo ou desconforto, mesmo quando estes partem de adultos conhecidos. É essencial esclarecer que ninguém deve pedir segredo sobre toques ou conversas relacionadas ao corpo.

A supervisão também deve se estender ao ambiente digital. Os responsáveis precisam monitorar interações nas redes sociais e aplicativos, alertar sobre o compartilhamento de fotos e assegurar às crianças que podem buscar ajuda sem temor de punições.

Caso uma criança faça uma revelação sobre abuso, é fundamental ouvir com calma, acreditar na narrativa apresentada sem culpar a vítima e evitar perguntas repetitivas ou sugestivas. A criança nunca deve ser confrontada diretamente com o suspeito nem forçada a repetir sua história diversas vezes. O caso deve ser encaminhado para serviços especializados de proteção e assistência médica quando necessário.

Compartilhando sua vivência pessoal, Matheus Rocha enfatiza que o silêncio protege quem comete abusos e não as vítimas. “Falar sobre isso serve para alertar outras famílias. Precisamos escutar nossas crianças atentamente e criar um ambiente seguro onde elas possam relatar qualquer situação”, afirma.

Suspeitas ou casos confirmados devem ser comunicados ao Conselho Tutelar, Polícia Civil, Ministério Público ou ao Disque 100 – serviço gratuito disponível 24 horas por dia. Em situações emergenciais, recomenda-se contatar a Polícia Militar pelo número 190.

 

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